Recentemente, comecei a ler o livro O Mundo é Curvo, no qual o autor relata alguns dos mistérios por trás do mercado financeiro (que nos impedem de enxergar além de um certo horizonte, daí ser o mundo curvo); é um contraponto ao livro O Mundo É Plano, best-seller de alguns anos atrás, no qual o autor Thomas Friedman descreve o alcance do processo de globalização (que derrubou as fronteiras comerciais e intelectuais entre países e pessoas, daí o mundo ter se tornado plano).
Folheando O Mundo é Plano novamente, recordei-me de que um capítulo, o Nove, é dedicado a comparar antigos métodos de montagem (acúmulo de estoques, produção em série, controles de qualidade, etc) com os modernos métodos just-in-time (o produto é montado apenas após o pedido do cliente); e para descrever o just-in-time, o autor narrou justamente uma conversa que teve com a Dell sobre como fora montado um notebook que havia comprado.
O texto tem já alguns anos, mas dá bem uma mostra de como opera uma moderna empresa de notebooks que opera sob encomenda (no Brasil, por enquanto, apenas a Dell faz isso). Abaixo, alguns trechos do capítulo; comentários desse blog são anotados em vermelho.
“Meu computador foi gerado quando liguei para o 0800 da Dell em 2 de abril de 2004 e falei com o representante de vendas, que imediatamente registrou meu pedido no sistema de gerenciamento de encomendas. Ele digitou o tipo de notebook que eu encomendara, assim como as características específicas que eu desejava, junto com informações pessoais a meu respeito, endereço para entrega, endereço para cobrança e informações do cartão de crédito.
A Dell tem seis nove fábricas em todo o mundo (a Dell andou abrindo e fechando fábricas desde então; o livro menciona uma fábrica no Brasil em Eldorado do Sul, mas ela já foi fechada; uma outra fábrica foi aberta em Hortolândia, e continua operando): Texas, Carolina do Norte, Malásia, China, India, Brasil, Polônia, Méxido e Irlanda; meu pedido foi mandado por e-mail para a fábrica da Malásia (muito embora a encomenda tenho sido feita nos EUA, a máquina foi montada na Malásia - provavelmente por conta das especificações encomendadas; no Brasil, isso é praticamente impossível de ocorrer, devido à alta carga de impostos, como mencionado aqui e aqui).
Mas de onde vieram os componentes do meu notebook? perguntei. Para começar, responderam, o notebook foi projetado em colaboração entre Austin, Texas, e Taiwan por uma equipe de engenheiros da Dell e outra de projetistas taiwaneses de notebooks. O design básico da placa-mãe e o gabinete - a funcionalidade básica da máquina - foram projetados segundo essas especificações por um original design manufacturer, ou ODM em Taiwan. Nossos engenheiros vão então às instalações deles e eles vêm a Austin, e juntos projetam os sistemas (mais detalhes nesse post: ODM e OEM).
Quando a encomenda do meu notebook chegou à fábrica da Dell, faltava uma peça, o adaptador wireless, e por isso a montagem do notebook atrasou alguns dias; mais tarde, chegou o caminhão cheio de novos adaptadores. No dia 13 de abril, um funcionário da Dell Malásia pegou a ordem de serviço que automaticamente apareceu no momento em que todas as peças de minha encomenda haviam chegado dos fornecedores de peças para a fábrica na Malásia (isso explica por quê ocorrem atrasos na entrega de máquinas da Dell; a montagem do notebook em si é bastante simples, mas a Dell depende de diversos fornecedores de peças).
De onde vieram essas peças? A Dell utiliza muitos fornecedores para a maioria dos trinta componentes desses notebooks. Dessa forma, caso um fornecedor tenha um problema ou não consiga responder a um aumento da demanda, a Dell não fica parada. Eis os principais fornecedores da máquina que eu encomendei (o autor quis demonstrar que as peças para a montagem de um notebook provêem de um mercado globalizado): o microprocessador Intel veio de uma fábrica da Intel nas Filipinas, Costa Rica, Malásia ou China. A memória veio de uma fábrica coreana (Samsung), taiwanesa (Nanya), alemá (Infineon) ou japonesa (Elpida). A placa de vídeo foi remetida ou de uma fábrica taiwanesa (MSI) ou chinesa (Foxconn). O ventilador veio de uma indústria taiwanesa (CCI ou Auras). A placa-mãe veio de uma empresa coreana em Xangai (Samsung) ou de uma taiwanesa em Xangai (Quanta) ou de uma taiwanesa em Taiwan (Compal ou Wistron). O teclado veio ou de uma firma japonesa na China (Alps), ou de uma taiwanesa em Shenzen (Sunrex) ou de uma taiwanesa em Suzhou (Darfon). A tela de cristal líquido foi fabricado ou na Coréia (Samsung ou LG), ou no Japão (Toshiba ou Sharp), ou Taiwan (Chi Mei Optoelectronics, Hannstar Display ou AU Optronics). O adaptador wireless veio ou de uma empresa americana na China (Agere) ou Malásia (Arrow), ou de uma fábrica taiwanesa (Askey ou Gemtek) ou chinesa (USI). A bateria veio ou de uma fábrica americana na Malásia (Motorola), ou de uma indústria japonesa no México, na Malásia ou na China (Sanyo), ou de uma outra sul-coreana nesses países (SDI ou Simplo). O drive do disco rígido foi feito por uma empresa americana em Singapura (Seagate), ou por uma japonesa na Tailândia (Hitachi ou Fujitsu), ou por outra japonesa nas Filipinas (Toshiba). O drive de CD/DVD veio de uma firma coreana que tem fábricas na Indonésia e Filipinas (Samsung), ou de uma fábrica japonesa na China (NEC), ou de uma japonesa na China (Sony). A bolsa para transporte foi feita ou por uma fábrica irlandesa na China (Tenba), ou uma americana na China (Targus, Samsonite ou Pacific Design). O transformador veio ou de uma indústria tailandesa (Delta), ou de uma taiwanesa, coreana ou americana na China (Liteon, Samsung ou Mobility). Essa profusão de nomes de empresas provavelmente está presente em qualquer notebook vendido no mundo, inclusive, é claro, no Brasil.
Essa sinfonia da cadeia de fornecimento - desde minha encomenda por telefone até a produção e a entrega em minha casa - é uma das maravilhas do mundo plano.”