A precária infra-estrutura da internet brasileira



Ontem, 3 de julho, uma falha na rede da Telefónica afetou seriamente o tráfego da internet em São Paulo; grandes empresas (Banco do Brasil, Itaú, HSBC), diversos órgãos do Governo e milhões de usuários domésticos tiveram o acesso prejudicado ou interrompido. Hoje, 4 de julho, ao divulgar que os serviços estavam parcialmente restaurados, o Presidente da Telefónica afirmou: “Chegamos à conclusão que é algo raro e complexo. Estamos trabalhando com todos os nossos fornecedores. Até o momento, infelizmente, não pudemos identificar as causas, as origens deste problema.”

Ou seja, o maior Estado do Brasil praticamente pára porque UMA empresa teve problemas; a empresa demora dias para resolver o problema; e o máximo de explicações que fornece é que “o problema é raro e complexo”.

O fato vem mostrar de forma irrefutável o quão precária é a infra-estrutura da internet brasileira. Dependemos todos de algumas poucas empresas, que, vemos agora, estão despreparadas para lidar com problemas complexos. Nos Estados Unidos, numa situação como essa, a Telefónica estaria falida; no Brasil, continuará lucrando como sempre.

Além de servidores diversos, a internet depende para funcionar de uma estrutura física, por onde os dados trafegam. O tronco dessa estrutura é chamado de backbone (”espinha dorsal”), uma rede, atualmente em fibra óptica, por onde transitam grandes volumes de dados; a partir dos backbones, ramos mais finos vão conectando-se aos grandes provedores, de onde saem ramos ainda mais finos até os médios provedores, e assim sucessivamente até o usuário final. Mas o que define a capacidade do país de garantir o tráfego permanente de dados da internet é a abrangência e a robustez do backbone.

No Brasil, o backbone foi construído pela então monopolista Embratel, e foi expandido pelas atuais oligopolistas operadoras de longa distância.

Nos Estados Unidos, o backbone começou a ser implantado há décadas pelo Departamento de Defesa (a ARPANET); nos anos 80, a tarefa foi conduzida pela National Science Foundation (que gerenciava a NSFNet). A partir dos anos 90, quando a internet assumiu o modelo comercial atual, diversas grandes empresas passaram a investir em gigantescas redes próprias, e em pouco tempo tornou-se desnecessária e impraticável uma gerência centralizada para o backbone.

Para garantir que o backbone tivesse a maior abrangência e a maior confiabilidade possíveis, essas grandes empresas, voluntariamente (sem nenhuma imposição legal), resolveram assinar acordos entre si, permitindo a troca de dados entre suas redes, sem qualquer tipo de restrição.

Essas grandes redes interligadas formam o que hoje se chama de Tier 1 Network (Camada 1 da Rede); algumas das empresas (todas gigantescas) que compõem o Tier 1 são ATT, Global Crossing, Level 3, NTT, Qwest, Sprint, Verizon.

Na prática, é como se a Tier 1 formasse uma única e gigantesca rede, com enorme redundância e robustez; quanto mais próximo se está do T1 (existem também as Tier 2 e Tier 3), mais confiável será a conexão à internet.

Nos Estados Unidos, nenhum Governo deixa de funcionar porque uma empresa se deparou com “um problema complexo”.

Veja preços de Notebooks

Leave a Reply