VIA versus Intel e AMD



Até alguns anos atrás, o mercado de chips para computadores era dominado pela Intel e pela AMD. Desde há alguns semestres, entretanto, a empresa taiwanesa VIA tem começado a aumentar sua presença nesse mercado. A VIA costumava restringir-se ao mercado placas-mãe e microprocessadores de baixo desempenho como o C3 e C7, utilizados em computadores de baixíssimo custo (por exemplo, as máquinas eletrônicas de bingo, que executam repetidamente o mesmo software, utilizam chips VIA).

Nos últimos meses, a VIA realizou investimentos para dar um salto de qualidade em seus produtos. O produto mais visível desses novos tempos é o chip VIA Nano, que foi escolhido pela HP para equipar seu primeiro netbook, o HP 2133. Testes vêm demonstrando que o VIA Nano é superior em desempenho ao Intel Atom, embora o Atom tenha consumo mais baixo (na entrevista abaixo, a VIA afirma que o índice desempenho/consumo do Nano é melhor do que o do Atom; ou seja, o Nano de fato consome mais, mas o ganho em desempenho é proporcionalmente superior à perda em autonomia).

Se há alguém que pode disputar a supremacia de Intel e AMD, esse alguém é a VIA. Bastou apenas uma boa idéia, o Eee PC, para tirar a Asus do rol de personagem secundário no mercado de notebooks e alavancá-la para brigar com os grandes fabricantes do setor; não seria surpresa se algo semelhante ocorresse no mercado de processadores.

O site britânico CustomPC publicou uma entrevista com um alto executivo da VIA (fiquei sabendo da entrevista por meio do meiobit, mas acho que o assunto merecia mais atenção). A entrevista é longa e um tanto técnica, mas deixa claro uma coisa: a VIA tem respostas satisfatórias quando questionada sobre seu papel no mercado futuro de processadores. Abaixo, tradução dos trechos mais interessantes.

P: A Via afirma que a arquitetura Isaías (utilizada pelo Nano) é o mais rápido do mundo nos cálculos com ponto flutuante. Trata-se de um grande avanço em relação aos chips anteriores. O que fez a VIA dedicar-se a aprimorar essa tecnologia? (Nota: operações com ponto flutuante são muito utilizados por softwares que executam muitos cálculos, como aplicativos gráficos e jogos em 3D).

R: De fato, o VIA Nano é capaz de executar quatro somas e quatro multiplicações em ponto flutuante em cada ciclo de clock, o que o torna o mais rápido entre todos os processadores x86. Entretanto, não é verdade que apenas agora estejamos priorizando o ponto flutuante. O fato é que, com o C7, era difícil aumentar o desempenho em ponto flutuante e ao mesmo tempo manter o consumo de energia em níveis baixos. Com a nova arquitetura do VIA Nano, conseguimos combinar alto desempenho em ponto flutuante com baixo consumo de potência.

P: A VIA planeja lançar chips Isaías com múltiplos núcleos?

R: O VIA Nano foi projetado desde o início para ser dual-core, mas nós optamos por utilizar um apenas um core nessa primeira fase. Esperamos lançar VIA Nano dual-core em 2009.

P: A arquitetura Isaías será utilizada apenas no Nano ou já se planejam outros processadores baseados nessa estrutura?

R: Nós esperamos que a arquitetura Isaías se mantenha atual por vários anos, e já começamos a otimizá-la para diversas aplicações. O processador VIA Nano é apenas a primeira geração da Isaías; nós temos uma porção de produtos excitantes em produção.

P: Atualmente, a VIA está focada em médios e pequenos PCs com baixo consumo, mas por outro lado vocês já demonstraram que o Nano é capaz de rodar Crysis (nota: Crysis é atualmente o jogo que mais exige recursos de hardware). Vocês estão considerando entrar no mercado de gamers e PCs de alto desempenho?

R: Embora o VIA Nano possa apresentar excelente desempenho em games, nosso foco continuará a ser em notebooks, mini-notebooks e dispositivos móveis. Vamos também nos focar no mercado de máquinas verdes (produtos ecológicos) e dispositivos de comunicação de PCs, pois é nesses mercados que somos mais fortes e onde vemos mais chances de crescimento.

P: Qual é a importância do índice de desempenho por Watt no atual mercado de processadores?

R: Desde que a corrida de velocidade de clock entre a Intel e a AMD teve um fim, o índice de desempenho por Watt tem ganhado cada vez mais importância. O índice é importante não apenas por indicar diminuição no consumo de eletricidade (com conseqüências financeiras e ambientais), mas também em vista do crescimento do mercado de notebooks e dispostivos portáteis, que necessitam de componentes eficientes para permitir maior autonomia de baterias. Desde o lançamento do VIA C3 em 2001, a VIA tem sido o líder no setor de processadores x86 com alto índice de desempenho por Watt. Agora, com o VIA Nano, estamos mantendo a mesma tecnologia de redução de consumo que desenvolvemos anteriormente, e estamos melhorando o desempenho do processador - o resultado é que o VIA Nano é, com folga, o líder de mercado no quesito desempenho por Watt.

P: Por que você acha que o VIA Nano é superior ao Intel Atom?

R: No Atom, a Intel adotou uma arquitetura escalar e ordenada, o que permitiu construir um chip com baixo consumo de energia. O VIA Nano tem uma arquitetura super-escalar e não ordenada, o que objetivou aumentar o desempenho. A grande diferença é que a opção da Intel comprometeu bastante o desempenho do Atom, enquanto a opção da VIA preservou as conquistas anteriores de baixo consumo. Em vários testes executados em julho e agosto, o VIA Nano teve desempenho claramente superior ao Atom, enquanto os níveis de consumo mostraram-se semelhantes.

Além disso, o VIA Nano tem compatibilidade pino-a-pino com a família C7, permitindo às OEMs oferecer produtos para diferentes nichos de mercado utilizando a mesma placa, e facilitando futuras necessidades de upgrade. O Intel Atom não é compatível com nenhuma das plataformas da Intel.

P: Tanto a Intel como a AMD estão estudando incluir processamento gráfico dentro do processador. A VIA também considera essa possibilidade?

R: A idéia de se colocar CPU e GPU num mesmo chip não é nova; nós já fizemos isso com algumas de nossas plataformas nos anos passados. Para o momento, nossa prioridade é combinar as pontes Norte e Sul em um mesmo chip, o que nósjá vimos fazendo desde 2006 com os chipsets VIA VX700, CX700M e VX800; com isso, os upgrades são muito mais fáceis do que se os GPUs estivessem no mesmo chip que a CPU.

P: Como estão as relações entre a VIA e a Intel no momento? Vocês superaram as desavenças que houve há alguns anos por causa do licenciamento do chipset para o Pentium 4?

R: A única resposta que eu posso dar é que a VIA e a Intel são concorrentes diretos num mercado muito disputado. Nós temos grande respeito pela Intel, não apenas como concorrente, mas também por suas enormes contribuições para o desenvolvimento do mercado de PCs.

P: Qual produto será a maior fonte de receitas para a VIA nos próximos anos?

R: Até hoje, o produto mais vendido da VIA foi o C7, tanto no mercado de dispositivos como no de PCs - em especial o segmento de mini-notes. Entretanto, esperamos que o VIA Nano, com alto desempenho e baixo consumo, e com várias melhorias ainda a serem anunciadas, torne-se atrativo para os fabricantes de PC. Assim, o Nano deverá ser nossa maior fonte de receitas no futuro.

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